14 - COM QUEM ESTOU ME ENVOLVENDO?




14 - COM QUEM ESTOU ME ENVOLVENDO?

Mais um dia de trabalho na Baker Street, estávamos em 2016; envolvidos em outros casos, muitas pessoas imaginam como seria um escritório de detetives particulares, muitas pessoas quando nos contatam na verdade não sabem o que vão encontrar, as vezes pensam em um local pequeno e sujo com um detetive gordo e malvestido que ultrapassa os limites da legalidade para atingir seus objetivos, mas posso garantir que a nossa realidade é bem distinta, trabalhamos há mais de 21 anos com investigações privadas e possuímos nosso escritório pequeno, mas aconchegante onde eu e minha assistente trabalhamos diariamente, porém a nossa rede de profissionais e colaboradores especialistas que nos auxiliam direta e indiretamente hoje conta com mais de trinta pessoas; após o esclarecimento vamos à história:
Estávamos em uma terça feira de maio de 2016; e fomos contatados por um rapaz pelo aplicativo WhatsApp que após algumas indagações, fornecermos nossas referências e ele marcou uma consulta em nosso escritório para as primeiras horas da manhã.
Na hora aprazada toca o interfone e solicitamos que o cliente que vamos chamar de Claudio suba para a consulta; ao adentrar a sala notamos um rapaz aparentando 30 anos, alto e vestido com roupa esporte e de grife, usava aliança na mão direita que indicava compromisso de noivado; indicamos seu lugar na sala que imediatamente ocupou e após as apresentações cordiais iniciamos a consulta:
-Vou começar expondo os últimos acontecimentos que geraram este terrível problema que passo a narrar; sou arquiteto e empresário do ramo da construção, estou separado de minha ex-esposa Carla, há questão de 8 meses, temos uma filha de 6 anos e nosso rompimento deu-se de maneira tranquila e consensual; a questão de seis meses reencontrei uma garota de nome Linda que trabalhou como estagiaria na empresa da minha ex-esposa, que presta serviços de Recursos Humanos a grandes empresas; conhecia Linda apenas de raros encontros e recordo de tê-la visto por poucas vezes, devo confessar que ela é uma linda mulher, com a ênfase do trocadilho, tem 27 anos e hoje é proprietária de uma loja franquiada de uma famosa marca de chocolates bem aqui no bairro do Tatuapé; onde também reside, devo confessar que estou completamente apaixonado como nunca estive, ela é uma mulher muito bonita, encantadora e há um mês atrás a pedi em casamento, contudo devo confessar que embora ela resida apenas com sua irmã gêmea, existem algumas situações que me deixam muito desconfiado e confuso com relação a este relacionamento.
-Peço que descreva algumas destas situações para que possamos entender melhor aonde quer chegar; para podermos traçar um perfil de investigação – indaguei.
-Nestes seis meses em que nos relacionamos ela nunca me apresentou a sua família e embora ela me diga que seus pais são do interior, mais precisamente da cidade de Barretos-SP, sempre apresenta alguma desculpa ou situação para que este encontro não ocorra; nem mesmo a sua irmã fomos apresentados formalmente apenas a encontrei por umas duas ou três vezes em seu apartamento quando procurei a Linda e ela não estava e fui recebido pela sua irmã Ana, que é totalmente diferente de Linda, Ana é promoter de uma boate e trabalha na noite paulistana, é muito despojada, bebe com frequência e Linda até desconfia que ela utilize drogas sintéticas, mas ai já é outro problema.
Outra coisa, nestes seis meses de relacionamento nunca passamos a noite juntos, claro que nos relacionamos e vamos a hotéis e para minha casa, contudo ela sempre se diz obrigada a retornar ao seu apartamento no final da noite, e nunca me permitiu passar a noite com ela.
- E o que ela diz, quando você a indaga a este respeito? – Disse minha assistente Miriam
-Ela sempre fala que teve um relacionamento anterior muito complicado em que seu parceiro a maltratava, inclusive a agredia física e verbalmente, e que ainda não está preparada para dormir na mesma cama comigo por enquanto; chego a pensar que ela o que ela poderia me esconder, talvez um marido ou amante? Sinceramente não sei, em sua loja eu passo lá todos os dias, converso com as funcionárias e com ela todos os dias, não sei mais o que pensar e preciso muito da ajuda de vocês! – Concluiu o Claudio deixando-se abater e recostando em sua cadeira.
Como ele dividia um plano de telefonia celular com a Linda, certamente ela saberia do seu acesso irrestrito as suas chamadas celulares, e que de certa forma nunca escondera ou restringira o acesso do Claudio ao seu aparelho tornando suas atitudes claras e sem restrições.
Optamos por sugerir um seguimento pessoal por um período de quinze dias, para apurarmos suas atitudes e locais de frequência, bem como um levantamento pessoal dela e de sua irmã que residia com ela, bem como uma visita aos seus pais para apurarmos as circunstâncias que envolveram a sua mudança e de sua irmã para a capital paulista.
Iniciamos o seguimento diário e para nossa surpresa, Linda demonstrou ser uma pessoa de rotina, saia para trabalhar todas as manhãs, frequentava academia, encontrava-se com seletas amigas; ia para a loja onde permanecia até o fim da tarde e retornava para casa, esta rotina só era quebrada quando encontrava com o Claudio, quando suspendíamos a vigilância e respeitávamos a sua intimidade.
Dentro dos levantamentos preliminares apuramos que a irmã de Linda, Ana Julia não figurava em cadastros comerciais, processos judiciais ou como proprietária de bens ou veículos, apenas exibia-se em redes sociais com muitos amigos virtuais e sempre em ambientes noturnos, fato que nos chamou muito a atenção; já a Linda possuía cadastro comercial, empresa em seu nome, veículo e contrato de aluguel com seguro fiança e tudo mais.
Enquanto nossos agentes prosseguiam no seguimento, sob nossa supervisão; fomos ao interior em um vilarejo muito próximo a cidade de Barretos/SP, para obtermos informações, e traçarmos os perfis de Linda e de sua irmã Ana Julia.
Nos hospedamos em um Hotel na região central de Barretos, e localizamos o endereço dos pais de Linda que eram Gumercindo e Ana Rosa; residiam sozinhos em um sitio na zona rural da cidade; precisávamos obter informações mais concretas do perfil das averiguadas que nos reunissem elementos para a solução do mistério.
Vigiamos o sítio e apuramos que o casal residia na casa principal e havia uma outra casa de caseiros onde moravam um casal de idade jovem com três filhos pequenos.
Dentro do nosso perfil de busca deduzimos que Barretos é a capital nacional de rodeios e geradora de vários personagens nativos que hoje brilham nos rodeios pelo mundo, então nos transfiguramos em um casal de jornalistas que buscavam histórias de personagens para um publicação editorial que seria lançada no próximo festival de rodeio; e assim nos apresentamos na escola  estadual da região a busca de informações de ex-alunos, dentre nosso foco é claro seria as fichas e perfis escolares de Linda e Ana Julia.
Ao chegarmos na escola fomos recebidos pela diretora, uma mulher de sessenta anos chamada por Silvia que declarou estar no comando da escola há pelo menos 30 anos.
Perguntamos de nomes que pesquisamos como personagens do rodeio e de histórias de sucesso, contudo inserimos as irmãs nas questões pois nos seria necessário sabermos um pouco mais de suas trajetórias escolares para traçarmos seu perfil que seria utilizado na entrevista derradeira com os seus pais.
Para nossa surpresa a diretora nos narrou que as irmãs estudaram na escola até se formarem no ensino médio; e transcrevemos o diálogo da diretora em uma informação que mudaria todo o rumo da investigação:
- As irmãs Linda e Ana Julia, sempre muito bonitas e bem cuidadas pelos seus pais, estudaram conosco por muitos anos, embora idênticas em aparência, elas eram muito diferentes em atitudes e comportamento; aliás comportamento este que culminou com a tragédia que passo a descrever. – Estávamos em Dezembro de 2006; ambas estudavam no último ano do ensino médio ; a Linda uma jovem muito estudiosa que sempre apresentava boas notas, não era muito popular, podemos dizer que era mais caseira que sua irmã Ana Julia que era muito popular e namoradeira, nesta idade já namorava serio com um jovem chamado Jonathan, cinco anos mais velho e filho de um rico fazendeiro da nossa região, a sua turma escolar faria uma viagem de formatura a uma praia nordestina, quando a um dia da tão esperada viagem ela desapareceu, sua família registrou o desaparecimento e cinco dias depois; Ana Julia foi encontrada morta à tiros e enterrada na entrada da fazenda dos pais de Jonathan; o rapaz apontado como principal suspeito nunca chegou a ser preso pois viajou ao exterior; os  pais das meninas ficaram inconformados e meses depois mandaram Linda para a capital residir com parentes. Seus pais nunca mais foram os mesmos e há quem diga que até hoje brigam na justiça a elucidação de tão terrível crime.
Em posse desta informação, fomos conversar com os pais de Linda desta feita, nos apresentamos como repórteres investigativos e conversamos com o casal que confirmou a mesma história acrescentando que desde o ocorrido Linda passou por terapia e até hoje é tratada em São Paulo; desde o ocorrido nunca mais voltou a cidade, sempre que recebe a visita dos pais eles que se deslocam até a capital; claro que durante a conversa tivemos acesso ao atestado de óbito e a exames bem como ao boletim de ocorrência e demais comprovantes que confirmavam a tão terrível história.
Em posse destas revelações, retornamos à capital paulista com muitas dúvidas ainda; Ana Julia teria morrido mesmo, neste crime em 2006? Linda haveria assumido uma dupla identidade por desvios comportamentais, ela realmente acreditava ser a irmã em determinados momentos? De que maneira contar, e provar o que estaria ocorrendo com a nossa investigada?
Retornamos em uma segunda –feira, e imediatamente chamamos o nosso cliente Claudio em nosso escritório para traçarmos uma estratégia de ação e responder as questões que nos prendiam a atenção; marcamos para o mesmo dia as 17 horas.
Na hora aprazada o recebemos em nosso escritório, assim que nos reunimos colocamos as nossas descobertas sempre amparadas pelas gravações e documentos das nossas entrevistas, de modo a não deixar dúvidas dos fatos apurados; ele reagiu com muita desconfiança, como que a não acreditar naquilo que apresentávamos, contudo nossos argumentos precisos e verdadeiros acabaram por convence-lo.
Sugerimos que o Claudio, como já haviam formalizado o noivado, pedisse a Linda uma chave do apartamento como demonstração de confiança, no que foi prontamente atendido; marcamos então para seguir a Ana Julia em seus dias de trabalhos noturnos, e simultaneamente entraríamos junto com o Claudio no apartamento da Linda para de uma vez por todas sabermos se elas eram a mesma pessoa; marcamos para a próxima sexta feira.
Neste dia, acompanhamos a Linda desde a loja até a sua entrada no seu condomínio, exatamente as 19:00 horas; quando as 22:00 horas Ana Julia saiu como sempre, chamou um carro de aluguel e deixou o condomínio pela porta principal; enquanto uma de nossas equipes acompanhava Ana Julia, em direção a casa noturna que trabalhava, no bairro de Vila Madalena, adentramos juntamente com o Claudio ao apartamento de Linda, ele entrou sozinho pela porta principal e confirmou o que suspeitávamos, não havia ninguém em casa, ou seja, seria impossível Linda haver saído senão pela personagem de Ana Julia criada em sua imaginação ; adentramos o apartamento juntamente com o Claudio e para nossa surpresa haviam dois quartos, roupas separadas e produtos de higiene pessoal e maquiagens de duas pessoas diferentes, em uma escrivaninha um diário de Ana Julia, que encerrava-se no dia do seu desaparecimento; diante do apurado agora não havia mais dúvidas Linda e Ana Julia eram a mesma pessoa; Linda não soube psicologicamente lidar com a perda de sua irmã gêmea e assumiu a sua personalidade inconscientemente, e desde que chegou a São Paulo abandonou o tratamento psiquiátrico que iniciara no interior.
Fomos embora e orientamos ao Claudio a deixar tudo como estava, e o mais difícil de tudo era não contar nada neste primeiro momento, não a confrontar ou assustá-la, procuramos juntos um médico especialista que nos aconselhou a seguinte situação:
Procuramos seus pais e Claudio se apresentou, com a nossa ajuda contamos a eles tudo que estava acontecendo, e a necessidade de amparar a Linda no tratamento efetivo a ser realizado; seus pais concordaram em virem para São Paulo e acompanharem de perto o tratamento necessário.
Quase um ano depois do ocorrido, continuamos em contato com o Claudio que eventualmente nos informa a situação de Linda, Ana Julia após o início do tratamento desligou-se de suas atividades e segundo soubemos já não aparece com frequência nas noites paulistanas.
Observamos ainda, que está história demonstrou acima de tudo respeito com a condição alheia, percebam os leitores que o Claudio, por mais que o problema se apresentasse difícil, ele soube colocar seu amor e o bem estar de sua amada acima de qualquer sentimento e soube, ou sabe ainda esperar e cuidar da reabilitação de sua amada, ou como ele mesmo nos afirma o “..ela é o amor da minha vida!”.


FIM.

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